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SHH005 // ALBATRE // A Descent into the Maelstrom

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Today the new Clean Feed batch has arrived, and we’re still struggling to get some of the previous releases reviewed. This album comes from Shhhpuma, the Portuguese label’s side project, now featuring Albatre, a sax trio that brings us a refreshing and modern new sound.
The trio is Hugo Costa on alto sax, Gonçalo Almeida on electric bass and German drummer Philipp Ernsting, but their take on jazz is anything but what you can expected. It sounds like the grunge version of jazz, with heavy moments of raw violence alternated with quieter melodic moments, like a mixture of Zu with Jim Black’s Alasnoaxis.
Bass and drums come with all the anger and energy of a rock or punk band, while the alto screams and wails full of distress and agony like only a sax can in the best of free jazz modes. The music is raw, direct, without embellishments and needless decoration. This is straight-in-your-ears power jazz, but then of the clever kind and with depth.
A Descent Into The Maelstrom … indeed!

in: FreeJazz by Stef

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Today, another volume in the adventurous Shh Puma series of avant recordings overseen and manufactured by the makers of Clean Feed. It’s a good one. The trio at work on this program is Albatre. The disk is entitled A Descent into the Maelstrom (shh puma 005).
Albatre is a rather explosive grouping of Hugo Costa on alto sax and loops, Goncalo Almeida on electric bass and effects, and Philipp Ernsting, drums and electronics.
This is out, very edgy music with a pronounced electricity. It has the power of avant metal though it isn’t quite that. It is highly energized avant free jazz-rock on the fringes. Hugo Costa warbles, screeches and blasts his way through walls on the alto. Goncalo Almeida hits the bass full-force and gets the power of hard and furious playing with the judicious aid of effects. Sometimes he sounds very guitar-metal like, sometimes it is a bracing set of low-frequency barrages, but it’s good. And Phillip Ernsting hits the drums on all-fours, bashing, thrashing and weaving in and out of time. He also provides washes of electronics which add to the tumult.
Now I know there are some that might not appreciate this music. But hey, some of what I cover is not for the unwary, and so this fits right in with those sorts of recordings. It does it excellently, flat-out, with no attempts at commercial amelioration whatsoever. A first-rate avant blow-out! Recommended if you dig the interface between free jazz and metal thrash. Yeah!

in: Gapplegate by Grego Edwards

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Da Europa tem vindo intensas variações do que podemos chamar de jazzcore. O trio Albatre é uma das novas surpresas nessa seara, tendo em sua base dois instrumentistas portugueses – o baixista Gonçalo Almeida e o saxofonista Hugo Costa – aliados ao baterista alemão Philipp Ernsting. Embebidos por energia e urgência que desvelam influências tanto do free jazz quanto do rock, o trio montou sua base na cidade de Roterdã e tem aos poucos invadido palcos europeus referenciais do free – em maio, por exemplo, chegam ao clássico espaço londrino “Vortex Jazz Club”. Sem obrigatoriamente fazer do peso ruidoso uma busca incessante, o Albatre encontra espaços para divagações entorpecentes que preparam os tímpanos para os centrais picos explosivos. Uma das grandes revelações do ano.

in: Free Form Jazz by Fabricio Vieira

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Albatre is an improvising trio from The Netherlands consisting of Hugo Costa on alto saxophone and electronics, Gonzo Almeida on bass and electronic effects and Philipp Ernsting on drums and electronics. Their music is frenetic and exciting free jazz with splashes of electronics that gives the music a wide palette of sound. Electric bass guitar and pulsating drums combine with snarls of electronics making a dark and ominous sound that is really in your face with blasts or drums between wails of saxophone. The start-stop dynamic they use is particularly effective as a tension building device on “Malestrom.” A spare and haunting theme opens “Aphotic Zone” with the reverberations of the electronics making for a lonely feel to the music. The full band comes through and really ramps things up into overdrive, moving into the following track, “Deep Trench” which is shorn of any ornamental nature and evolves into a pure trio stomp. “Vampyroteuthis Infernalis” has a strong bass and drum foundation that drives the music ever forward and makes for a great launching pad for an absolutely scalding sound. The closing “Albatrossia” breaks with the formula a bit, with Almeida and Ernsting developing a fractured funk groove before Costa enters and leads the group into an overpowering collective improvisation. I found this album to be quite enjoyable and exciting. The group holds nothing back, and fans of The Thing and similar groups should find a lot to enjoy here.

in: Music and More by Tim Nil

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Ce sont deux portugais et un allemand qui forment le trio Albatre, trois musiciens prometteurs que j’entends ici pour la première fois: Hugo Costa (saxophone alto, loop), Gonçalo Almeida (basse électrique, effets) et Philipp Ernsting (batterie, électronique). Indéniablement, Albatre rappelle la fin des années 90 et le début des années 2000 avec ce mélange détonant de punk et de free jazz. Une musique puissante, énergique et explosive, avec un son global massif et enflammé, des riffs gras et nerveux, des blasts et des rythmiques progressives tendues, un saxophone criard et virulent. Oui, on reconnaît là les éléments qui faisaient de Zu un super trio, mais Albatre ne s’arrête pas là. Avec l’ajout d’effets et d’électronique, c’est tout un penchant de l’improvisation libre et de la noise qui s’ajoute à leur musique. Albatre sonne comme un hommage aux groupes de free-rock, mais enrichit aussi sa musique d’éléments plus propres à l’eai et à la noise, ainsi qu’au progressif par moments… Six pistes, une petite demi-heure, et le tour est joué pour une suite explosive et grandement énergique de morceaux variés, énervés, viscéraux, sincères et originaux.

Une musique pour intellectuels “frustrés de n’avoir jamais été punk”, pour mélomanes alcoolisés et amateurs de noise comme de free. Hardcore, puissant, massif: jouissif.

in: Improv Sphere by Julien Heraud

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Há gajos com sorte, ponto. Gajos como eu e outros mais que já tiveram a oportunidade e o privilégio de poder desfrutar deste “A Descent into the Maelström” (Shhpuma, 2013), novíssimo disco dos Albatre, um projecto sediado em Roterdão, na Holanda, e dinamizado por Hugo Costa (saxofone alto e loops), Gonçalo Almeida (baixo eléctrico e electrónicas) e Philipp Ernsting (bateria e electrónicas). E não é exagero, há mesmo gajos com sorte; mesmo.

“A Descent into the Maelström” é um disco cheio de complexidades, um disco cheio de múltiplas soluções criativas. Não sendo um disco de puro rock ou de jazz, é acima de tudo um disco disso tudo e muito, muito mais. Estilisticamente pouco ortodoxo, ”A Descent into the Maelström” é ainda assim um enorme e criativo exercício de estilo, cravado de elementos rock e free jazz alinhados por fortes correntes de improviso e uma indomável vontade experimental. Não se espere o óbvio, nada disso, esperem antes uma conjunto de novas e intrincadas soluções instrumentais. O ritmo é verdadeiramente pulsional, assombroso, a espaços também vagaroso mas quase sempre violento, pujante, de linhas sonoras enigmáticas. Por mim, está encontrado um dos discos do ano!

in: A Trompa by Rui Dinis

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Crítica rock a um disco de jazz. Ou o contrário.

Grosso modo existe, tanto nas cabeças de quem escreve como de quem lê, a ideia (quase como um estereótipo, se é que lhe poderemos chamar assim) de que a crítica jazz tem obrigatoriamente de ser diferente da escrita pop/rock; os agentes culturais e outras forças externas incutem-nos essa percepção de que a primeira é mais erudita, e por conseguinte deverá ser analisada de forma mais cuidadosa, minuciosa, do que o simples disco rock de massas. Não enveredemos, contudo, por esse género de discussões – estas linhas são apenas um prefácio ou uma justificação para o que se segue.
O facto é que projectos como os Albatre – que não são os primeiros nem serão os últimos a pegar na feeria rock e a misturá-la com improvisações ou incursões pelo jazz – obrigam-nos a pensar nisto: que recursos estilísticos poderemos nós, os que escrevem, empregar? Importa falar de A Descent Into The Maelström com a loquacidade e literacia que nos merece, estudando estas peças academicamente, ou, do alto da nossa juventude eterna e rebelde, exorcizar Lester Bangs e descrever/elogiar o disco de Hugo Costa (saxofone alto), Gonçalo Almeida (baixo eléctrico) e Philipp Ernsting (bateria) por aquilo que nos faz sentir, inserindo a caralhada certeira no final de um qualquer parágrafo?
Dado que uma crítica é pessoal e intransmissível a não ser que estejamos a falar da Pitchfork e do seu rebanho hipster, opte-se pela segunda – pedindo desde já desculpa a quem se sentir ofendido ou enganado – porque 1) o autor destas linhas não é académico nem pretende sê-lo e 2) o autor destas linhas é um jovem eterno e rebelde do rock n’ roll. A Descent Into The Maelström é um híbrido excelente, uma daquelas provas de que o casamento interracial é algo de belo. Há um qualquer tema náutico na sua génese mas não interessa, porque temos que indubitavelmente falar da forma de tocar incendiária de H. Costa, e esta analogia seria um paradoxo absurdo ou um enorme erro de cálculo, já que o fogo não se dá bem com a água.
O destaque, contudo, vai todo para o baixo (já que a crítica é pessoal assuma-se desde já um fetiche por este instrumento) e para o riff pesado que o próprio começa a esgalhar ali por volta dos três minutos de “Maelström”, cru e eléctrico, acompanhado por percussão enérgica – julgamos estar num moshpit até que o chiar do saxofone em “Aphotic Zone” nos traz de volta à realidade. Este é um disco de jazz, ou lançado por uma editora de jazz, por isso não podemos dizer que isto nos arrepia a espinha. Ou se calhar até podemos. Daqui até final A Descent… continua a corroer-nos as veias com mais da mesma brutalidade, passando pela carícia stoner de “Vampyroteuthis Infernalis” e finando em “Albatrossia”, esgotados todos os adjectivos doutos. Venham então os populares: isto é do caralho.

in: Bodyspace by Paulo Cecílio

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Albatre provém da fornalha efervescente da cena improv da Holanda (Roterdão), de onde têm saído outros jovens grupos particularmente dinâmicos como EKE (com Yedo Gibson, Oscar Jan Hoogland e Gerri Jäger). Funciona como uma espécie de “power trio”, com os “loops” e o sax alto de Hugo Costa no lugar da guitarra eléctrica.
Gonçalo Almeida troca, neste contexto, o seu habitual contrabaixo por um baixo eléctrico e Philipp Ernsting desdobra-se entre a bateria e a electrónica. A fazer jus ao portentoso conto de Edgar Allan Poe com o mesmo nome deste disco, “A Descent Into the Maelström”, a música espirala-se em contínuas camadas, ganhando as composições títulos tão pouco auspiciosos como “Apothic Zone” ou “Vampyroteuthis infernalis”.
À primeira audição parece-nos um clone de Zu, mas com algo de Painkiller. O certo é que se afasta da complexidade técnica de Zu, que por vezes constrange a música deste grupo italiano, assim obtendo um “drive” único. E se não chega à insanidade de Painkiller, também, felizmente, não lhe repete o “azeite”.
Apesar das boas ideias introduzidas, estas arrastem-se sem desenvolvimento nem conclusão. O conceito estético adequa-se perfeitamente ao conceito de Poe, fosse essa a intenção ou não, mas a fórmula necessita ainda de algum refinamento.

in: Jazz.pt by P.Sousa

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SHH004 // JOANA SÁ & LUÍS JOSÉ MARTINS // Almost a Song

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A not quite love poem, an open-ended daydream, a spontaneous idea that flutters away and falls apart right at its moment of realization. This narrative guides us through this collaboration between Portuguese artists Sa and Martins. Most notably on our “Rock” song; frantically scurrying to grasp a fleeting notion, they dizzy themselves trying to find common ground and collapse in fits of desperation. Martins’ guitar really injects a distinctly Iberian flavor here and on the first track, where his hypnotic 5/4 loops and serene fingerpicked sweeps act as an anchor for Sa to dreamily toss and turn around the keys in this tragic and ephemeral love song. The reprise on “partindo-se” settles into a more contemplative light, pondering its desolation and finding solace in isolation until tremors creep up the spine and fear sets in. Here the cavernous echo reveals the electro-acoustic presence on the album as on track 4 (translates as The Insane Trout), where the electronics really stand out, warping the toy piano and percussive plonks into surrealist delusions; Martins’ fingersweeps are all that keep us from drifting into the ether. The final track goes almost catatonic, resting precariously on the outer edge of consciousness, trying to keep hold of its last traces of slipping sanity. The musical lucidity here may be abstract in form, but it couldn’t be more concrete in emotion. Beauty in melancholy, bliss blossoms torment.

in: Kfjc by Abacus

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“Almost a Song” é uma colaboração entre a pianista Joana Sá e o guitarrista Luís José Martins. Embora ambos já tivessem trabalhado juntos com Eduardo Raon no Powertrio, este duo não é “apenas” essa formação sem o harpista.
As coordenadas são outras. O álbum apresenta composições dos dois músicos cuidadosamente trabalhadas e enlaçadas, numa forma menos livre e solta que a do trio e com menos recurso a técnicas extensivas, ou pelo menos com uma abordagem estilística e uma atitude que o distingue.
O resultado é mais contemplativo e de rendilhado complexo, sendo ambos os músicos incrivelmente eficientes em desenvolver e segurar as ideias. Cada mudança sente-se como uma porta que se abre, permitindo a passagem de inesperadas brisas. Há mesmo algo de efabulatório, de fantástico, como um conto de fadas sem palavras.

in: Jazz.pt by P.Sousa

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Surimpression de climats empruntant à la musique classique ou contemporaine, à la chanson, au free-jazz et au rock sur suites d’accords anodins se déconstruisant progressivement. Miniatures brutes, naïves, à observer à la loupe et rejoignant par moments l’esprit de KLIMPEREI ou de PASCAL COMELADE.

in: Orkhestra 

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o CD da Sá e do Martins. Estes tocam uma série de instrumentos mas com prominência para o piano e guitarra clássica, e se esperam daqui a calmaria típica dos portugueses ou Indie Rock dos Pinhead Society (Sá fez parte) ou algum terror Deolinda (Martins faz parte), esqueçam. As peças invocam música de câmara cheia de silêncios e reflexão só que… de repente entra em drones barulhentos que estragam o ramalhete estético todo – e ainda bem! Um mimo este disco, um mimo!

in: Chili com Carne by Marcos Farrajota

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Almost a Song, na sua interacção constante entre o leve dedilhar na guitarra de Luís José Martins e o piano fragmentado de Joana Sá, traz-nos uma colecção de peças assombrosas, tão inquietantes quanto reconfortantes na forma como se apresentam perante nós. Logo em “Cantiga de Amor” e “Rock em Setembro” atravessamos este turbilhão de sentimentos de melancolia e resignação até aos sprints endiabrados dos seus segundos finais, onde a distorção e o martelar diabólico nos deixam ofegantes. Apesar de menos turbulenta, “Cantiga, Partindo-se” ludibria-nos com uma aparente ternura, que revela tons ameaçadores no seus crescendos finais, “Die Wahnsinnige Forelle” — que significa ‘A Truta Insana’ (obrigado, Babelfish) — faz jus ao seu nome com a mescla de ruídos que nos apresenta e “Presque Sarabande Quasi Una Fan” (esta não fui traduzir) encerra o disco num ponto mais suave e ameno, mas nunca destoando da premissa estabelecida pelas anteriores canções.

Ao longo dos seus cerca de 40 minutos, na sua agitação, suavidade, e de acordo com a estética quase minimalista a que muitas vezes recorre, Almost a Song não será, certamente, um disco para toda a gente. Mas para quem optar por se deixar conduzir ao longo das suas cinco canções, espera-lhe uma experiência deveras gratificante.

in: Vice by João Rocha Pereira

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L’initiative est encore osée de la part de Shhpuma, car ce duo sort vraiment des sentiers battus. La musique composée et improvisée par Joana Sá (piano, piano toy, celesta, percussions & electronique) et Luís José Martins (guitare classique, percussions & électronique) est plutôt protéiforme. En effet, les cinq pistes de ce disque sont le fruit d’un mélange un peu extravagant de méthodes d’écriture et de techniques de jeu propres au classique, à la chanson, au jazz, au rock, à la musique contemporaine, au free jazz. Des boucles mélodiques naïves et enfantines précèdent des clusters, une grille d’accord se déconstruit progressivement de manière atonale, etc. Mais je ne sais pas, je n’y arrive pas. Il y a une sorte de facilité ou d’inconsistance qui m’empêche de pénétrer chaque pièce, le plus rebutant étant l’ambiance naïve et crédule souvent présente. Et ce malgré quelques moments innovants et originaux ainsi qu’une technique instrumentale irréprochable… Presque une chanson, un peu trop proche pour moi de la chanson justement, avec ses ritournelles assommantes, ses mélodies niaises et ses structures inconsistantes.

in: Improv Sphere by Julien Heraud

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É Só Inquietação

Quando Joana Sá e Luís José Martins, ela que fora dos Pinhead Society, ele que toca nos Deolinda, chamam ao seu duo e a este disco Almost a Song, a única pista que nos estão verdadeiramente a fornecer é a de que a improvisação que aqui se faz ouvir é derramada sobre estruturas que, apesar de elásticas, são ainda assim estruturas reconhecíveis. A partir desse entendimento, a palavra “song” pode voltar descansada para o sítio de onde veio. Nos seus cinco temas, diferentes abordagens a uma circularidade obsessiva e sempre na procura de um ponto de tensão quase insuportável (sobretudo Rock em Setembro e os minutos finais de Cantiga, partindo-se), o piano de Joana Sá e a guitarra de Luís Martins vão atraindo minudências electrónicas, como casas e telhados a voar sugados para o olho do furacão. Mais longe do que haviam ido com o Powertrio (que incluía o harpista Eduardo Raon) na sua proposta de música contemporânea, há neste duo uma capacidade avassaladora de torcer uma melodia e espremê-la até à última gota, até que esta quase perca a forma. Nessa altura, jogam-na fora e atiram-se a outra. Cada vislumbre de sossego é aqui sistematicamente colocado em contagem decrescente para uma torrente de inquietação. No piano de Joana Sá, autora do excelente Through this Looking Glass e da música (Variações pindéricas sobre a insensatez) do filme Tabu, de Miguel Gomes, há uma soltura e uma ansiedade que se encontram também na obra do pianista alemão Alexander von Schlippenbach – para onde confluem a música improvisada, o jazz e a clássica –, mas a sombra espectral da guitarra (e da sua manipulação) de Luís Martins atira Almost a Song para uma qualquer zona fora do mapa. A fluidez e organicidade com que tudo isto desfila à nossa frente é, acredite-se, coisa de pasmar.

No seu segundo ano de existência, a Shhpuma oferece à música portuguesa a primeira obra de assombro da sua actividade editorial. Nem que fosse só por este disco, já tinha valido a pena inventar um nome e um catálogo.

4,5

in: Ipsilon by Gonçalo Frota

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Almost A Song é um projecto de Joana Sá e de Luís José Martins, dois terços de Powertrio que, em 2005, formaram com o harpista Eduardo Raon. Com a saída de Raon para o estrangeiro, o projecto foi-se diluíndo e a carreira de Joana e Luís encontrou rumos paralelos: a pianista apostou forte na sua primeira obra – “Through This Looking Glass” é uma obra portentosa para piano preparado que nos agitou há dois anos -, e Luís é um dos elementos dos consagrados Deolinda. Agora, de novo, estão juntos num disco que finalmente oficializa alguns concertos que nos tinham deixado óptimas impressões e com vontade de ouvir muito mais. Almost A Song não nos dá variações pop, como se podia supor, mas sim o contrário: composições contemporâneas e arrojadas que piscam o olho a melodias e refrões sem paternidade. É o “almost” que nos conquista sem retorno, esse terreno formado pela volatilidade e indefinição, e que forma uma obra que parece estar sempre em diversão pelos cânones para os implodir de seguida: “Cantiga Partindo-se” – note-se o título – é um monumental tema de 15 minutos que evolui do silêncio até a uma arrepiante tempestade eléctrica. “Almost A Song” está cheio de ideias, muitas ideias, compatíveis e benignamente incompatíveis, frutos da imaginação e brilhatismo de quem sabe muito bem o que está a fazer. E o que este powerduo está a fazer é deixar o seu nome na história de 2013. Soberbo.

in: Flur by Pedro Santos

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Quase canções, disco admirável

De que falamos quando falamos de canções? Talvez dessa harmonia suspensa em que voz e instrumentos, melodias fluidas e suas interrupções, nos ensinam a imaginar um ordem alternativa para o mundo das sensações e dos sentidos. Faz sentido, por isso, que este álbum de Joana Sá e Luís José Martins se defina através de um gesto aproximativo: Almost a Song (ed.: Shhpuma). São, de facto, cinco quase-canções trabalhadas por ela, em piano e algumas derivações, e por ele, em guitarra clássica e algumas electrónicas. O resultado possui a nitidez de uma geometria capaz de inventar os seus próprios parâmetros, envolvendo o fascínio radical de uma experiência que, sem pretensão nem auto-indulgência, viaja entre a experimentação jazzística e as sonoridades perdidas da infância (ouça-se o revelador Rock em Setembro). Admiravelmente elegante, elegantemente inclassificável — por certo um dos grandes discos da produção portuguesa dos últimos largos anos; e não é quase… é mesmo.

in: Sound + Vision by João Lopes

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Quase canções perfeitas que fogem às convenções

A pianista Joana Sá e o guitarrista Luís José Martins (Deolinda) uniram-se no projeto Almost A Song, acabando de lançar o primeiro álbum pela Shhpuma Records. Quando há dois anos se estreou em nome próprio com Through this looking glass, um trabalho inspirado no universo de Alice no País das Maravilhas, a pianista Joana Sá já tinha revelado um talento inexcedível, invertendo convenções com o seu piano preparado, que não se prendia em gavetas estílisticas rígidas para fazer valer a sua criatividade. Agora em Almost A Song uniu o seu piano (e restantes “brinquedos”) à guitarra clássica de Luís José Martins (membro dos Deolinda), que também se aventura pelas paletas eletrónicas. O maravilhoso resultado desta parceria poderia resumir-se com o título da terceira faixa deste disco, Cantiga Partindo-se. Juntos trabalham em melodias quase perfeitas, que quase se transformam em cantigas, mas desviando-se sempre dessas formas padronizadas, literalmente partindo-as para dali nascer um outro mundo. É nesse quase, nessa imperfeição que está o ganho deste Almost A Song. Porque é quando se dá o caos que as ideias mais revigorantes e inventivas se revelam em todo o seu esplendor, desafiando as normas do que se pode definir como jazz, música contemporânea, erudita ou improvisada. Sentem-se aqui as heranças da escola minimalista, mas também é perceptível a extrema cumplicidade entre Joana Sá e Luís José Martins na liberdade e elegância com que abordam a música e os seus instrumentos. Será muito difícil este ano superar uma obra tão desafiante quanto este Almost A Song.

Classificação: 5/5

in: Diário de Noticias by João Moço

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Quase uma canção, mas um disco por inteiro.

Existe primeiro a estranheza: a da capa, conforto infantil que nos baixa as defesas, que nos engana e nos esconde a música real que aqui se encontra, as letrinhas minúsculas indicando toy piano ou classical guitar, a própria ideia de cantiga; partimos à procura da pop e da familiaridade, somos assomados pela brusquidão, pela travagem, pelo susto, até. Depois, Almost A Song abre-se-nos por completo. Permanecendo infantil, brincadeira de meninos. Junção de sons como quem pinta por fora do traço.

Joana Sá e Luís José Martins, bons enganadores que são, crianças que deverão ser – quanto mais não seja onde é suposto continuar a ser-se criança, no coração – uniram esforços em Almost A Song para nos dar uma música a espaços indefesa, a outros desafiante, indiferente nunca. Suavemente, a guitarra e o piano constroem uma pequena fantasia, uma “Cantiga de Amor” sem letra (não precisa), melancólica, exacta: perto do final desfaz-se completamente, entra a electricidade e um martelar – é a rejeição. Talvez do amor, se quisermos ler demasiado e deprimidamente, talvez da canção em si, que é isso que o título do álbum nos indica.

“Rock Em Setembro” poderia ser a ideia que um rapazinho tem deste género musical: cacofonia simples entre piano e guitarra, repetitiva e esgrouviada, tentativamente arrasadora no final – um metafórico riff demolidor de corninhos no ar. “Cantiga, Partindo-se”, a peça mais longa aqui presente, regressa à ideia inicial – vai criando uma atmosfera delicada que depois se parte ao meio, dando lugar ao medo e à sombra, terminando de forma abrupta. Um ligeiro ponto negativo apenas para “Die Wahnsinnige Forelle”, pequena confusão electrónica, à qual se sucede o silêncio quase absoluto de “Presque Sarabande”, pontuado por um leve dedilhar e chiares fantasmagóricos. Almost A Song, repetimos, engana: apresenta-nos quase-canções, mas é um (belíssimo) disco por inteiro.

in: Bodyspace by Paulo Cecílio

 

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SHH003 // PARQUE  // The Earworm versions

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Parque, a Portuguese new music avant improvi- sation group with six members, performed three pieces as part of Ricardo Jacinto’s “Earworm Exhibition” at Culturgest/Lisbon. Parque: The Earworm Version (Shhpuma 003) is the recording of that performance. The group consists of Nuno Torres, alto saxophone, Ricardo Jacinto, cello and percussion, Nuno Morao, melodica and percussion, Joao Pinheiro, vibraphone and percussion, Dino Recio, percussion, and Andre Sier, electronics.

This is high abstraction music and each piece seems to have pre-planned compositional guideposts and what the liner notes call “instrumental devices concept,” all by Jacinto. There is live interactive electronics software developed by Sier and utilized for the first two works. The third work brings in a “Pendular Speaker”. The second, longish work includes a sci-fi narrative from “The Left Hand” by Hugo Brito.

That gives you the nuts and bolts of what is going on. The sound of the music is an evolution, an original contribution in the “tradition” of high outside, often electronically expanded modernist live music as MEV, AMM, Il Gruppo and the Spontaneous Music Ensemble pioneered it back in the early days of European improv. It is fascinating, full-fledged avant music of a very high order. If you know what all that means you will like this. If you have an adventurous spirit you will like this

in: Gapplegate by Grego Edwards

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Les trois pièces quasi symphoniques, en plusieurs mouvements, de l’artiste transmédia portugais RICARDO JACINTO furent écrites pour des installations ou des performances. La dernière (Atraso) joue sur le balancement d’une enceinte, oscillant à la manière d’un pendule. Les instruments (violoncelle, saxophone, vibraphone, cymbales et mélodica) modulent la hauteur et l’intensité d’une note répétée en boucle, travaillant à une sorte de chirurgie cinétique des sons. Une création musicale de l’ordre à la fois de la science et de la poésie, mais quelles que soient ses dérives, vivement recommandable.

in: Orkhestra 

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I’m hoping The Earworm Versions will garner a little more international attention for Ricardo Jacinto, the Portuguese polymath behind the music of Parque. Jacinto’s a cellist, but his resume stretches on: a student of architecture and sculpture, he combines sound installations, visual performances, and improvised music into colossal vortices of art. Even without the visual/physical element, The Earworm Versions is an impressive piece of music, certainly worthy to stand aside the names of fellow architects of sound like Max Eastley or Eli Keszler.
The Earworm Versions features three performances. The first is a piece for cello, alto saxophone, electronics, and percussion played on two giant, suspended mirrors. “Peça de Embalar” is austere and moody, the cello drawing long tones over the timpani-like mirrors, sounds like thunder rising in the distance. “Os” features a similar instrumental line-up, only with 24 smaller, tuned mirrors that hang vertically from wires on the ceiling like cymbals.  The piece is interspersed with some readings from a sci-fi text (nothing special, but not terrible, either), which despite its strange subject matter represents the least interesting aural element at play. Still, at times the words and the sounds converge keenly. “It’s also fantastically cold,” says the voice early in the piece, and the low sound of the saxophone starts to lift, a sound almost like shivering, and then the delicate clatter of the mirrors, hammered like dulcimers, an orchestra of ice.
“Atraso” rounds out the selections, an improvisation that’s played back through a speaker on a pendulum, which is swung around a room by two performers, creating a disorienting Doppler effect that sounds as though the music is swooping and diving around your head. What sounds gimmicky on paper actually creates a compelling pulse in the music, a slippery rhythmic element that’s hard to pin down but proves to be the driving force behind the music.
There may be a debate to be had about divorcing these pieces from the structural and visual elements that make up their conceptual foundation, but the works can stand on the strength of the sounds alone. I’d like to think the performative and audio elements can serve two distinct functions and audiences (not mutually exclusive), rather than one being a lesser, incomplete version of the other. Either way, The Earworm Versions is lively listening, and a welcome edition to Sshpuma’s burgeoning little catalog.
Check out Jacinto’s site for video footage of the pieces featured on The Earworm Versions (be patient—for some reason they include the audience arriving and taking seats, too), and poke around some of his other installations while you’re there.

in: Free Jazz by Dan Sorrells

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Nos últimos anos, Ricardo Jacinto tem aparecido mais como músico do que como artista plástico – mesmo que esta análise esteja incorrecta, hoje encontramo-lo mais vezes num palco do que há alguns anos atrás. O que é uma boa notícia, pois temos notado que em resposta a este empenho, estamos a ouvir um nome fundamental da nova música portuguesa, um violoncelista no perfeito domínio do seu instrumento onde reconhecemos uma assinatura. E este percurso tem sido exemplar e digno de seguir: editou recentemente um álbum como Pinkdraft (um quarteto que partilha com Nuno Torres, Travassos e Nuno Morão), mas é tanto a solo como em duo que tem aparecido em múltiplos concertos, fazendo-nos crer da cuidadosa aprendizagem e descoberta da sua própria música e percurso. E, talvez por isso, esta edição da Shhpuma é essencial, ao dar-nos um possível ponto de partida, apesar de para muitos seja de eloquente chegada: Parque é um ambicioso e raro momento no nosso contexto artístico, propondo-nos numa imponente instalação – Culturgest, 2008 -, a fruição de numerosas soluções sonoras estruturadas pela improvisação, aleatoriedade e interactividade, demasiado grande para se colocar num disco. Contudo, a experiência no vazio é fantástica, dando-nos uma narrativa extra, deixando-nos a adivinhar espaços e acções que oxigenam o cérebro do modo como gostamos. Esta riqueza não é uma surpresa, pois agora percebemos melhor como a música é importante (ou… fundamental!) para a criação artística de Ricardo Jacinto.

in: Flur by Pedro Santos

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Crítica possível a um trabalho que não pode, por defeito, cumprir o seu propósito em pleno.É sempre complicado abordar um disco gravado ao vivo quando não se esteve lá; a gravação, por mais fiel que esteja, não se compara nem de perto à experiência sensorial que se vivencia a dois metros de uma performance, e os vídeos, por mais que nos mostrem, não passarão nunca de uma fugaz sucessão de imagens que esbarram na frieza do ecrã – não existe contacto humano, comunhão, não existe a percepção conjunta de nós próprios, do que nos rodeia, do outro e da música; existe apenas o som e resta-nos falar do som, analogamente, imaginando o que este poderia ser noutro formato que não o acrílico.
Não é tanto o som quanto a sua presença/ausência aquele que é o principal foco da exploração realizada em Earworm Versions, disco que retrata uma performance/instalação apresentada em 2008, na Culturgest, por Ricardo Jacinto, artista intermídia e violoncelista que teve a companhia de Nuno Torres (saxofone alto), Nuno Morão (melódica e percussão), João Pinheiro (vibrafone e percussão), Dino Récio (percussão) e André Sier (electrónicas). Separado por três peças – “Peça De Embalar”, “Os” e “Atraso” -, The Earworm Versions é um trabalho cujo propósito é, num contexto electroacústico, documentar a interacção dos diversos músicos com o espaço que os rodeia (ou rodeou), um espaço que, a nós, nos é perceptível apenas pela audição, com os momentos de (falso) silêncio preenchidos pelos sons que provêm do público que ali esteve presente.
Assim sendo, o objectivo principal de The Earworm Versions não poderá nunca ser captado pelo CD; seria preciso ter feito parte daquela audiência para perceber o trabalho de Ricardo Jacinto na sua contextura exacta – naquele local em específico. Restando-nos não mais que falar dos sons, destaca-se o primeiro movimento de “Peça De Embalar”, título enganador para uma peça terrífica, qual aranha subindo pela parede, e os quatro lados de “Os”, onde uma voz gravada nos apresenta aquela que será uma das ideias principais desta música («I’ve taken to talking to myself all the time just to hear some noise»), cativando-nos por completo especialmente no terceiro movimento graças aos pulmões de Nuno Torres. Não é o trabalho completo, como o deveríamos apreciar, mas é uma escuta desafiante e interessante de qualquer das formas.

in: Bodyspace by Paulo Cecílio

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Le label portugais Shhpuma n’a décidément pas fini de nous surprendre. Avec ces Earworm Versions, par le groupe Parque, on se retrouve ici face à une musique épique, proche de l’art total comme aurait pu le concevoir Wagner. Le groupe est composé de six musiciens : Nuno Torres (saxophone alto), Ricardo Jacinto (violoncelle, percussion), Nuno Morão (mélodica, percussion), João Pinheiro (vibraphone, percussion), Dino Récio (percussions) et André Sier (électronique). Composée par Ricardo Jacinto et jouée à l’occasion d’une de ses expositions, cette suite en trois mouvements bien distincts est principalement basée sur une installation sonore composée de miroirs suspendus, une installation monumentale qui se révèle d’une grande richesse. Même si tout s’apparente à de l’art sonore, le plus étonnant dans cette suite est peut-être l’aspect très mélodieux et musical des compositions, ainsi que l’utilisation souvent traditionnelle des instruments. Un espace musical où l’art sonore est au service de la musique populaire, et où la distinction entre musique improvisée et musique écrite se brouille.
Sur le premier mouvement de ce disque (c’est-à-dire les trois premières pistes), on est face à une musique calme, aérée (rarement plus de deux musiciens jouent simultanément, et le silence est assez présent), ponctuée de quelques arpèges et glissandi au violoncelle,  d’un saxophone langoureux, et des inévitables percussions, qui donnent ici un son proche de plaques de tôles frottées. L’espace se resserre au fur et à mesure et la pièce devient de plus en plus tendue, jusqu’à l’explosion programmée durant la troisième partie de ce mouvement où les interventions électroniques d’André Sier prennent une place de plus en plus importante et imposante, et où le dialogue entre chaque musicien devient proche de l’eai, un dialogue énergique et réactif.
« OS », le deuxième mouvement de cette suite, et aussi le plus important – notamment en termes de durée, puisqu’il dure plus de trente minutes sur les 75 minutes que dure ce disque – se caractérise par l’introduction d’un enregistrement vocal et une utilisation de hauteurs déterminées sur les percussions. Un mouvement fantomatique où la voix récite un texte qui émerge de percussions spectrales aux allures de cloches. Une expérience étrange aux sonorités improbables, avec une voix théâtralisée qui ajoute une nouvelle dimension (poétique ? théâtrale ? épique ?) à cette musique déjà riche. Les miroirs suspendus sont joués comme des gongs, ou des balafons, ou des instruments percussifs à usage rituel, les cymbales ajoutent des harmoniques, et le saxophone toujours aussi émotif répond parfaitement à cette voix prophétique survenue d’on ne sait où.
Et enfin, pour conclure ce voyage intense et épique, une dernière pièce basée sur le balancement d’une enceinte. Tous les instruments (violoncelle, saxophone, vibraphone, cymbales et mélodica) tentent au mieux d’imiter ce mouvement mécanique de pendule, et joue sur la hauteur et l’intensité d’une note répétée à chaque mouvement. Très belle réalisation spatiale où le son devient cinétique.
Beaucoup d’éléments mélangés dans cette longue suite, des éléments théâtraux et poétiques, architecturaux et scénographiques, musicaux et acousmatiques. Un mélange (d-)étonnant pour un art total aux relents wagnériens. Une musique vraiment originale et personnelle, riche et construite intelligemment, savante et réfléchie. Vivement conseillé.

in: Improv Sphere by Julien Heraud

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Parque é um projecto de natureza peculiar. O álbum “The Earworm Versions” é o registo sonoro de um evento maior, uma performance-instalação sonora de Ricardo Jacinto apresentada em 2008 na Culturgest, com a colaboração de Nuno Torres (habitual parceiro de Jacinto no duoCacto), Nuno Morão, João Pinheiro, Dino Récio e André Sier.
Colaboraram ainda Pedro Magalhães e Hugo Brito na manipulação de um pêndulo, elemento fulcral à volta do qual gira, ou neste caso, oscila a última faixa. Hugo Brito escreve também os textos narrados durante o tema “OS”.
Quando ouvimos este disco é impossível desligarmo-nos do facto de que esta obra envolve uma forte componente visual e implica a nossa presença enquanto espectador, como se carecesse da nossa análise subjectiva. Um interessante conjunto de coordenadas, portanto, a acrescentar ao facto de se tratar de uma narrativa sonora, como tal a descodificar.
De facto, é uma música com espaço, mas não apenas espaço na medida em que os músicos utilizam longos intervalos de silêncio e intervenções orquestradas. Acima de tudo, é um conjunto de sons altamente tridimensional, em que as esculturas sonoras de Jacinto são manipuladas para criar o eixo definidor de uma composição.
A escala é tradicionalmente considerada um dos factores mais determinantes de uma escultura, e este caso não é excepção. As peças têm uma excelente noção disso: contraem e expandem o nosso campo reverberante com tal clareza que, por vezes, se tornam inquietantes. Em especial no caso da última faixa do CD.
É pena, no entanto, que os momentos narrados cortem o transe contemplativo, através da introdução de ideias mais definidas e rígidas, apresentando-se como um choque (mas não um impedimento) para a criatividade abstracta que estamos a degustar.

in: Jazz.pt by P.Sousa

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SHH002 // PÃO // Pão

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Será, talvez, um preconceito da minha parte: o certo é que não consigo ficar indiferente ao escusado “estrangeirismo” de (mais) um disco de jazz que se apresenta sem uma única palavra em português… Enfim, temos os nomes dos criadores: Pedro Sousa (saxofone), Tiago Sousa (teclas) e Travassos (gravações, voz, etc.). E temos o título (da banda e do álbum): Pão (ed. Shhpuma).
Dito isto, e esperando que o desabafo não ofenda ninguém, Pão é um fascinante acontecimento, ao mesmo tempo minimalista e grandioso, contido e intimista, mas também galáctico e sinfónico. Como? E através de quê? Pois bem, seguindo e perseguindo os valores de uma crença radical nas artes frágeis da improvisação — procurando um entendimento da música que se confunde com a criação de um território que, por assim dizer, se vai ampliando à medida que procura reconhecer as suas coordenadas e desenhar o seu mapa. Enfim, uma experiência que se fundamenta em evidentes singularidades de diálogo entre os elementos do trio, ao mesmo tempo que se afirma através de um paciente, elaborado e contagiante universalismo. Maybe in english.

in: Sound+Vison by João Lopes

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Não parecendo, o disco de estreia dos “Pão” é na verdade um contínuo sonoro, coisa de um prazer quase interminável. Composto por três faixas apenas, ”Gods wait do delight in you” (6:37), ”Dyson Tree” (13:40) e ”It was all downhill after the sling” (23:53), “Pão” é um devaneio experimental levado até às últimas consequências, com alguma loucura, como quem aproveita o muito tempo que tem para dizer tudo o que quer, o que não quer, o que sabe e o que não sabe; com ou sem sentido. O que ouvimos nesta estreia dos Pão, um trio formado por Tiago Sousa (órgão e harmónio), Travassos (electrónica e manipulação de objectos) e Pedro Sousa (saxofone tenor), é uma espécie de sessão tântrica, assente num longo movimento drone, cortado a espaços por pulsões desgovernadas, complexas, diálogos a três pincelados pelo prazer único do improviso. É uma luta constante, um prazer prolongado que tem o seu clímax na última e longa faixa do disco. Num dramatismo crescente. “Pão” é um disco para gente sem pressa, ou melhor, para gente com pressa de se deliciar com a diferença.

in: A trompa by Rui Dinis

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The Portuguese creative music-improv scene today gets a new label to showcase some of the more adventurous sides of what is going on. It’s called Shhpuma. It’s a division of the seminal contemporary label Clean Feed. And I have their second release, Pao (Shhpuma 002), on my player as I write these lines.
Pao is a trio effort featuring Pedro Sousa on tenor sax, Tiago Sousa on keys, harmonium and percussion, and Travassos on live electronics. It’s a heady sort of new music-free improv sound they get, with layers of electronic texture and drone, sometimes aided by harmonium and other keyboard effects, for a tripartite series of soundscapes that places Pedro Sousa’s tenor overtop of the wash playing long notes, subtones, harmonics, unconventional soundings and breaking at certain points into a flurry of avant expression which stands out as significant contrast and musical event.
This is music of adventure, not exactly something to groove out on in some conventional jazzy sense. It is music of sound color, well done for what it is doing, moody, atmospheric. It is not music of a self-assuming sort. No one is trying to amaze you with prowess. It’s all about the sounds. That is fully legitimate (in the sense that it has as much right to exist as bebop or symphonic music) and they leave an impression that is both positive and memorable.

in: Gapplegate by Grego Edwards

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Soit Pão, trio portugais réunissant le saxophoniste Pedro Sousa, le claviériste-percussionniste Tiago Sousa et le manipulateur de bandes et d’objets Travassos.
Petits frères de The Necks, leurs songes sont hypnotiques, lancinants. Leur horizon est de brumes et de nappes. Leurs paysages sont désertés et ne s’y dépose aucune autre harmonie que celle, minimale, s’éternisant sur les trois longues plages du disque. Le saxophoniste ténor module parfois ses effets : le voici prolongeant l’harmonique, caquetant son souffle ou poussant de poignants cris de désolation. Ainsi, passant de l’apaisement à l’épuisement mais ne remettant jamais en cause la tournure originelle, la musique de Pão navigue, impassiblement, en un vaste océan aux troubles et pesantes lenteurs.

in: le Son Du Grisli by Luc Bouquet

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PÃO // Pão ****½

I really like the foreboding intro to this album, the latest release from the new Portuguese label Shhpuma. It straight away sets an ambiance and a suspense, a feeling that you are in for something really good. It’s like there is something in the mud just ahead. You can’t see it yet, but it can see you. It is waiting until you get too involved to turn around and run. It waits until it can make a clean strike. Cymbals crash like dead branches beneath your feet, the saxophone is blowing wind through the trees all around you. Where is it?

Track 2, ‘Dyson Tree’, picks up where track 1 ‘Gods wait do delight in you’ leaves off, with a continuous drone being churned out by Tiago Sousa (keyboards, organ, harmonium and percussion) with a very restrained saxophone implying a melody in the background. Before long, however, your ear is drawn away from the tones and is forced to pay closer attention to the sax solo. Pedro Sousa (tenor saxophone) weaves a wonderfully slow, distraught display of subtlety and places it perfectly into the aural atmosphere constantly being set by Tiago Sousa and Travassos (tapes, amplified objects, circuit bending, voice). Because of this mood and tempo, the solo, thoughtfully, takes its own sweet time to fully develop but throughout its journey, it continues to change, search and explore multiple ideas until it finishes on fire. As track 2 was fading to its conclusion, I was already looking forward to the final and longest track on the recording.

Could what was hiding in the mud be something beautiful after all?

‘It was all downhill after the swing’, starts with Pedro Sousa displaying an orchestras worth of extended technique, chirps, and throaty effects before giving way to the electronics that were building momentum behind him all along. There are moments when the saxophone and the harmonium blend together so well that it becomes difficult to tell them apart. Around the 9 minute mark, the suspense starts to build again as percussion elements take a larger role and big powerful key changes in the tone wall signify a shift in control of the melodic elements of the track. There is a real sense of urgency at play here but no rush, a very important difference indeed. It is an unknown destination with no maps and no time limit but just the feeling that they absolutely have to get there.

Eventually, whatever was in the mud, turns around and heads back very pleased with itself.

Considering that this is only the second release from Shhpuma, they are already proving to have a great set of collective ears which will hopefully translate into longevity and many continued intriguing releases.

in: Free Jazz by Philip Coombs

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A very interesting debut for Portuguese trio, Pao. This is a dark, experimental and at times almost spiritual session, that is more than the sum of its parts. Structured by three long pieces, Pao demonstrates an ability to both calm and intrigue through a series of improvised pieces that still remain distinct and linear.

Opening quietly with gentle chimes and eerie electronic scratches/manipulation and one tone sax chords, “Gods Wait To Do Delight In You” establishes the path in which you are about to take. There are drones and effects that are dense yet mystical. The slow climb is similar in vein to The Necks or even more recently DMP Trio. Closing out “Gods…” is P. Sousa’s haunting sax and Travassos’ undulating electronics which are weirdly soothing.

“Dyson Tree” for me, had an almost Sunday morning church call to it. The effects of T. Sousa’s keyboard provides an organ like operatic sound. While Pedro and Travassos inject an Eastern element into the mix as the tune moves towards it’s middle lyrics. Rich and creative soundscapes happen throughout.

The closing number is my favourite. “It Was All Downhill After The Sling” is rough, gritty and beauty all at once, containing improvised lines that make you feel like your listening to session with Sonic Youth. The patterns never get overly loud. Pao manages to find a way to deconstruct and reorganize in a way that resonates long after the piece is over.

Pao is an exciting and highly creative trio from the new and continually adventurous Portuguese scene that is well worth your investigation. Sometimes you like to use the phrase “this won’t be everyone’s cup of tea”–but every once in a while I think everyone needs to be jarred out of their seat. Go buy this record! Highly Recommended!

in: JazzWrap by Stephen Moore

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酷暑であったり、天候がエクストリームであればあるほど、音楽には全くの別次元を求めたくなるのは筆者だけか。チャチに日常を直視させるようなBGMだけは御免だとおもう(執筆時、8月13日。暑い)。

宙吊りにされつつメロディに連れ去られる...多様な音のスパンを体感

い ずれもリスボンをベースとする気鋭のメンバーによるトリオ、Pao(パォン)のファースト・アルバムは、clean feedより発足したばかりのShhpuma(シュプーマ)レーベル初リリース2作品のうちの1作(もうひとつは先月号でご紹介したフィリペ・フェリザル ドのギターソロ→http://www.jazztokyo.com/five/five933.html)。聴き手を霊験なる没入へと誘う、高精度の引 力をもつ音の磁場である。メンバーは、ピアニスト・コンポーザーとして長いキャリアをもつティアゴ・ソウザ、若きサックス奏者にしてインプロヴァイザーの ペドロ・ソウザ、そしてリスボンの実験シーンの「仕掛け人」的存在であるトラヴァッソシュ、の3人。

音楽が含みもつ張力の限界へといどみ 続けるかのような壮大な3曲。全体に鍵をにぎるのは、ハーモニウムによるきわめて人間くさい人工音(構造が生む締め上 げ感が、諦念をはらむ音となって供される、独特のドローン効果)と、テナー・サックスの精度の高いメロディ性の横溢であろう。サックスに特有の、音が伸び やかに拡張される方向ではなく、逆に音の流れはタイトに絞り込まれている現象がおおい。ミニマリスティックなリフのなかには、中東風のメロディも見受けら れるが、あまりに求心力が高いがゆえにエスニックな要素は削ぎ落とされる。「ほのめかし」程度で核心を突かぬまま旋回しつづける、その連続が緊張と緩さを 同時に生むのだ。主流をになうダイナミズムが不在であることは、結果として細部の営みを淡々と照らすことにもなる。

ここで、ユニット名が 示唆的だ。ポルトガル語のPao(パォン)はすなわちパンのこと。主食である。活力の源でありながら、どんなものにも合う柔軟性が求 められる、中和剤的存在。その生成に至っては、無数の酵母の働きを前提とする。このトリオも、自己分裂を繰り返して自らを食い尽くしながら、さまざまな ヴァリエーションを試しているユニットであろう。材料に何を使うかである。必ずしもオーガニックのみにあらず、どぎつい添加物から人工甘味料まで何でもご ざれだ。想定された材料(確立された奏法、演奏技術、楽器、コンポジションetc.)が生む想定外の結果と、想定外の素材(未知のオブジェクト操作の 数々、インプロ、etc.)が生む意外に調和的な仕上がりなど、焼いてみなければわからないのがパンの世界か。例えば、サックスのブレスの掠(かす)れや サーキット・ベンディングのショートが生むノイズと、その直後の断絶。それらは俗に沈黙と称される無音地帯と対比されるどころか、なだらかな同一線上にあ る。連綿とつづく音のスパンに身を浸す醍醐味に満ちたアルバムである。

ミニマルやドローン音楽は、裏を返せばコンセプトづくしで、感覚だ けで聴いているとわけがわからないことが多々あるものだが、このPaoの音楽には聴き手 を凝り固まらせない包容力がある。楽器扱いの修錬を根底とするメロディ表現の多様さによるものだろうが、奇抜なことをやっても決してゲテモノにはならず、 想像力豊かで重層的な広がりを感じるのは地の利のゆえか。日本のようなインダストリアル社会から出現したユニットならば、ひじょうに現実的な音楽だと言え るが、風や光を日常に強烈に感じる、人間関係も密な、原発とも無縁な西の果ての港町からの音である。遠くを見つめる俯瞰力と、日本とは逆の意味での非日常 の力をおもう。止むに止まれず出たものではなく、自ら選び取った自由を感じる。(*文中敬称略、伏谷佳代

in: Jazz Tokyo by Kayo Fushiya

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Um dos projectos mais intrigantes a surgir nestes últimos anos na improvisação tuga, eis finalmente que o trio Pão tem a circular o seu disco de estreia, homonimamente intitulado. Trata-se de uma “drone music” surpreendentemente orgânica e colectivista, resultando da acção combinada do saxofone tenor de Pedro Sousa, regra geral tocado com as técnicas extensivas (por exemplo, “tongue slaps”, respiração circular) que identificam o chamado reducionismo, o “circuit bending”, a manipulação de gravadores de cassetes e os objectos ultra-amplificados de Travassos, e ainda os teclados e a percussão de Tiago Sousa. Entre o paisagístico e o concretista, esta é uma música de efeito hipnótico, parecendo suspender o correr do tempo e enchendo o espaço sonoro de pequeníssimos eventos simultâneos que nos levam a mergulhar nas tramas criadas.

in: REP no sapo by Rui Eduardo Paes

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his is the first offering from Lisbon-based trio PÃO, which consists of tenor saxophonist Pedro Sousa, keyboardist Tiago Sousa and the electronician known as Travassos. We are given three lengthy pieces that seem to be improvisations, the longest of which, “It was All Downhill After the Sling,” nearly reaches the 25-minute mark. The trio paints on a huge canvas, inhabiting what Evan Parker labels the laminar, or long-droned, world of AMM, or certain passages from Musica Elettronica Viva, rather than what he calls the atomistic realm of Spontaneous Music Ensemble and associated improvisers, such as Derek Bailey or Paul Rutherford.
Parker’s description of AMM’s music as “layered” led Eddie Prevost, in the liner notes to the triple AMM CD Laminal, to refer whimsically to the submarine sandwich. I’d like to extend the metaphor to explain why, ultimately, PÃO’s debut fails. A good sub is unified; you taste each ingredient, but something holds everything together, blends the flavors and textures so that the whole experience exceeds the impact of each part. This is certainly true with AMM’s music, despite radical changes in style and execution. If a point of comparison is to be made, PÃO’s vision resembles that of AMM’s Crypt session from 1968 in scope and dynamic range. The music ebbs and flows in vast waves of uhr-drone, wending its way through discernable tonal centers as the glacial structures are built and rebuilt in slow fade. The problem is that for the most part, each layer in PÃO’s structures exists as a separate layer, unification all but absent. Take the opening of “Sling,” where a sustained harmonium note contrasts with some breathy saxophone utterances and, a bit later, semi-rhythmic percussives. The layers seem to be functioning at cross-purposes, like badly written counterpoint.
This is not to deny some excellent playing, notably from Pedro Sousa, whose sound is unique and exciting, especially in the very tangible way he uses his breath to support the long fluttered tones he floats over harmonium and electronics. It isn’t even that there’s a lack of listening; the group meets at strategic points, converging on a tonal center in some very beautiful moments of dialogue. Listen to the opening of “Dycon Tree,” to the way saxophone merges with the other elements, creating a delicate balance so that the instruments become indistinguishable. Perhaps this is a path for the group to follow? As it stands, and despite an excellent recording, Pão seems to be a disc documenting a group in the process of finding a voice and a balance.

in: Dusted Magazine by Marc Medwin

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A composição dos Pão é particularmente demostrativa da saúde da música das margens portuguesa. Conta com Travassos, senhor de dispositivos electrónicos insubmissos, Tiago Sousa, autor de uma respeitável discografia a solo na qual o piano assume preponderância, e Pedro Sousa, rapaz prodígio dos sopros feéricos em saxofone. Em Pão, estas três abordagens ao som constroem algo de único, mesmo que parta de territórios já conhecidos.
A música que os Pão apresentam, em três longas peças instrumentais, é devedora do minimalismo, da trip psicadélica inspirada no Oriente, do jazz mais livre.
Mas os Pão fazem-na com notável acerto, seguindo uma lógica interessante: em vez de erigirem montanhas de som, esvaziam-nas. “Esvaziamento” é a palavra que nos ocorre nomeadamente na segunda peça, como se o trio tivesse enchido um balão de som, e depois disso, passado longos minutos a gerir a saída do ar, antes de tudo voltar a levantar do chão, com o saxofone a  abrir caminho e a percussão a mostrar-se libertária.
O saxofone de Pedro Sousa ora se aproxima do jazz mais contemplativo, ora liberta fogo. A electrónica subterrânea de Travassos acrescenta grão ao som continuo saído do harmónio de Tiago Sousa, sempre em respirações circulares. Ouvimos aqui minimalismo à Terry Riley, mas também a libertação da forma de uns Sunburned Hand of the Man. Música sem tempo e com todo o tempo do mundo.

in: Público by Pedro Rios

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Pão est un trio portugais composé de Pedro Sousa au saxophone ténor, Tiago Sousa aux claviers, harmonium et percussions, et Travassos aux cassettes, objets amplifiés, un mystérieux “zx 150”, circuit bending, et voix. Ils composent trois longues pièces linéaires et entropiques, du moins à la manière de Thomas Pynchon (encore lui oui). Il s’agit de créer un espace statique (telle la pièce maintenue à 37° Fahrenheit de l’écrivain américain) et de voir comment l’énergie se déplace à l’intérieur de cet espace donné. On a donc de longs bourdons (merci l’harmonium), acoustiques mais aussi électroniques, des basses continus ou des accords soufflés, sur lesquels surgissent à tout moments de longs cris lyriques, plaintifs, craintifs, abrasifs, au saxophone aussi bien qu’à l’électronique.

De manière générale, la musique est tout de même assez harmonique et une forme de mélodie dilatée et étirée jusqu’au chaos émerge lentement et progressivement. Mélodie ponctuée de court-circuits, ou de cris. Ce n’est qu’à la fin du disque, sur la dernière piste qui évolue en un long crescendo jusqu’à atteindre un climax plutôt noise, un gros cluster entouré d’un violent mur électronique corrosif et de hurlements au ténor qui ne sont pas sans rappeler Mats Gustafsson, que la mélodie disparaît au profit d’une exploration sonique où l’énergie se libère et semble exploser l’espace produit auparavant. Mais dans l’ensemble, les phrases mélodiques sont omniprésentes, ainsi que le bourdon qui les soutient, des phrases lyriques, belles, plaintives, tristes, sombres.

Une musique cohérente, originale, sensible et sincère. Puissante dans son déterminisme et sa continuité à tout épreuve, elle peut emmener loin, sur des territoires inconnus, mais en plus, sa sincérité et sa singularité, son énergie et sa tension incroyables, tous ces éléments font de ce disque une suite dont on ne se lasse pas et qui apporte quelque chose de nouveau aux musiques improvisées en incorporant un minimalisme radical à un jeu organique et spontané. Du très beau boulot pour ce premier enregistrement du trio Pão.

in: Improv Sphere by Julien Héraud

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Pão, pão, queijo, queijo.
Não será segredo nenhum que por aqui gostamos muito de trocadilhos. Assim sendo, quando nos surge a oportunidade, servida numa bandeja de prata (ou numa rodela de acrílico) para tentar mais uma piada/analogia absurda, é óbvio que a aproveitaremos. Deste modo, o trio Pão – composto por Pedro Sousa no saxofone tenor, Tiago Sousa em teclados, harmónio e percussão, e Travassos em electrónica analógica – apresenta-nos no seu disco homónimo uma massa que vai fermentando e cozendo à medida que os temas fluem, e que termina numa calorosa e saborosa carcaça.

Vamos lá então explicar: partindo de uma abordagem experimental, a música do trio consiste sobretudo em longos momentos drone, sobre o qual o saxofone de Sousa vai impedindo que este se torne demasiado aborrecido ou sensaborão, e a percussão e electrónicas ambientais, o sal, lhe conferem um certo estatuto xamânico; aqui encontramos sobretudo música de transe, onde o objectivo é, mais do que ouvir, mergulhar nas paisagens, aterradoras por vezes, que são aqui erguidas – ou arrancadas – do lado desconhecido, da aleatoriedade aliada à improvisação.

Com isto, “Gods Wait Do Delight In You” é o momento em que a massa é colocada no forno, e ouvimos o fogo, o saxofone e a electrónica, a crepitar baixinho; “Dyson Tree” polvilha-a com os condimentos necessários, os primeiros momentos em que o harmónio e a percussão tomam lugares de destaque; e “It Was All Downhill After The Sling” é o final do processo, em que o volume – da massa e da música – aumenta exponencialmente e somos brindados com paredes de ruído e tensão naquele que é o melhor momento de Pão (somos, contudo, suspeitos: temos uma paixão demasiado elevada por este tipo de agressões sonoras). Um disco de estreia que não é, contudo, para qualquer gastrónomo. Os Bourdains adorarão, os Ramsays talvez prefiram algo menos exótico. Mas o que é a vida sem exotismo?

in: Bodyspace by Paulo Cecílio

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Alimento para a alma

Desde a sua criação, em 2001, que a Trem Azul Jazz Store – espaço lisboeta situado na Rua do Alecrim (a meio caminho entre o Cais do Sodré e o Largo Camões) – tem sido um espaço de encontro de melómanos, mas também de um contingente cada vez maior de músicos em busca de outros com quem partilhar explorações sonoras. Se o cimento agregador é o jazz, as abordagens privilegiadas por esta cena emergente têm-se estendido a territórios muito mais vastos, abrangendo a electrónica, a música improvisada e a música contemporêna.

Nos PÃO, encontramos três dos mais insígnes representantes desta efeverscente cena musical. Tiago Sousa (esse mesmo, responsável pelo excelente disco que é Walden’s Pond Monk) pode encontrar-se aqui no harmónio e no órgão, Travassos manipula uma parafernália electrónica (exclusivamente analógica) e Pedro Sousa aparece com o seu saxofone tenor.

Embora a audição deste disco evoque paisagens, estas são, na maior parte, de um outro mundo, para o qual as nossas descrições de pouco servem. Há uma noção clara do contributo de cada instrumento na construção das três peças presentes no disco. Construções onde os critérios espartanos reinam, crescem para se tornar algo massivo, como que se alimentando da matéria sonora reverberante. Prenhe de espiritualidade, mas sem mestres nem igreja, a música dos PÃO repete um mantra sujeito a infímas e infinitas mudanças, ora juntando um elemento, ora retirando outro.

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in: A Cabra by JMP

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Formado por Pedro Sousa em saxofone tenor, Tiago Sousa em teclados, harmónio e percussão, e Travassos em múltiplos gadgets eléctricos (cassetes, circuitos e objectos amplificados), Pão parece ter a força e determinação que faltam a muitas ideias equivalentes que vão aparecendo no panorama mais experimental português. O drone parece ser de fácil construção, mas Pão investe sobretudo nos acabamentos finais, deixando vislumbrar mundos que habitualmente ficam submersos perante a massa sonora e a lenta velocidade dos acontecimentos – “Dyson Tree” tem, por exemplo, tanto de ambientalismo rico e fractal, como exala um perfume de aroma núbio. E a receita é, por vezes, tão simples como fatal: Tiago Sousa executa a geometria sonora, desdobrando caminhos e percursos; Pedro Sousa é o batedor desse terreno, desmultiplicando-se em múltiplos trajectos; e Travassos responsabiliza-se pela correcta electrificação e manutenção da topografia. E com três letrinhas apenas se escreve um dos projectos mais sólidos cá do burgo.

in: Flur by Pedro Santos

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Tenho um medo tremendo daquele gajo de cara pálida que entra no Estrada Perdida. Receio que me apareça à frente, num restaurante, e me diga qualquer coisa como: “Estou agora mesmo em tua casa a enfiar a tua escova de dentes no rabo”. É um tremendo cliché aquilo que vou admitir, mas todos os discos com um saxofone mais ligado aos sons da noite intensificam o medo que o David Lynch plantou na minha cabeça. Foi isso que aconteceu com o disco homónimo dos Pão, o trio formado por Pedro Sousa, Tiago Sousa e Travassos, que preenche aquela que é apenas a segunda edição da Shhpuma. Pois então, Pedro Sousa toca saxofone tenor, como se o instrumento fosse uma tarântula a trepar pela barriga e um gajo fica um bocado horrorizado com as três composições incluídas no disco chamado Pão. O Bill Pullman, que não é lá grande actor, toca também saxofone no Estrada Perdida e, a partir da daí, a associação passa a ser mais fácil. Contudo, quando “It was all downhill after the sling” começa a tocar, o Estrada Perdida dá lugar a uma espécie de banda-sonora para cenas românticas entre o anão e a velha do tronco, dois ilustres cidadãos de Twin Peaks. Esta é a segunda referência ao universo do David Lynch e isso só pode significar que não encontrei metáforas de jeito para falar dos teclados do Tiago Sousa ou das eletrónicas do Travassos. Mas gostei bastante deste disco.

7/10

in: Vice by Miguel Arsénio

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Num contínuo sonoro que é um prazer…
É isto tudo; é o disco de estreia dos Pão, um trio formado por Tiago Sousa (órgão e harmónio), Travassos (electrónica e manipulação de objectos) e Pedro Sousa (saxofone tenor), nomes habituados à coisa do improviso e a alguma experimentação. São nomes importantes habituados a caminhar pelas franjas distantes do mainstream.
O disco é uma edição da Shhpuma, uma nova editora potenciada pela pujante Clean Feed.

in: A Trompa by Rui Dinis

 

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SHH001 // FILIPE FELIZARDO // Guitar Soli for the Moa and the Frog

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Je n’ai pas aimé ces soli de guitare tout de suite et c’est de leur faute. Le son était trop clair pour moi, même si la guitare saturait rapidement dans les accentuations de jeu. Et puis les notes laissées en suspens à la fin des phrases dans une atmosphère de film de David Lynch : rien de neuf.  Les plaines arides – comme la musique cinématographique m’ennuie –, les arpèges-tirants-bootleneck faciles, rien de bien transcendant.
Tant et si bien que quand le silence prend le pas sur la guitare de Filipe Felizardo, les nuages se dissipent. Le début de Guitar Soli n’était donc que d’une facilité passagère ! La preuve : un blues blanc prend corps (on pense aux duos Loren Connors / Alan Licht), au loin des combats entre les aigus et les graves et même le ronron de l’ampli trouve quelque chose à dire. Malgré ses imperfections, le CD parvient à force à se faire une place de choix dans notre discothèque de guitare-héros fatigués.

in: Le son du Grisli by Pierre Cécile

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Ce qui frappe d’emblée dans la musique du guitariste portugais Filipe Felizardo, ce sont les silences qui trouent l’espace sonore, ces stases répétées entre chaque élans de riffs. Au point que l’on pourrait parfois – lors d’une première écoute surtout – penser que le morceau s’est achevé subitement, que l’immobilité l’a emporté sur la musicalité. Mais il n’en est rien. Ces sommeils de l’instrument (et du corps qui le porte) sont en réalité moins des baisses d’intensité que le soubassement de ce qui se joue. Moins la cessation de la musique que sa visée, l’attente d’un recommencement. Une intensité nocturne qui trouve son origine dans cette mutité tangible. Si l’univers musical torturé de Filipe Felizardo évoque ici l’oeuvre tardive de John Fahey (celle des distorsions électriques et réverbérées), il tire sa singularité de ces zones d’ombres silencieuses qui suspendent la cadence, font trembler l’inconnu, appellent les tourbillons de l’inconscient. C’est à une expérience de l’écoute que nous invite le guitariste. Un chant intérieur qui s’improvise et résonne par delà soi et dont la résonance inquiète la moindre note libérée.  Agitation reconduite du possible et de l’impossible, de la forme et de l’informe, du pire (la dissonance, l’accident) et de la grâce. Une musique du sang.

in: Desert Rouge by Fabrice Fuentes

 

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Using the guitar as one would a snake-charmer, Filipe Felizardo explores echo and reverb, with sustained notes and a lingering, open space that gives the minimalism of the song structures a warm, deep feel. The eight solo guitar tracks on “Guitar Soli for the Moa and the Frog” draw from American Primitive and the blues, but also from some of the more abstract work of Nels Cline and Bill Orcutt.
The centerpiece of the record is the four-part “A Conference of Stones and Things Previous,” of which the final two movements are the most compelling. “Of Obsidian, Doubly Refracting” is a masterpiece of restraint and emotional power, a hoodoo mix of blues and drone that is chilling. The final section, “De Vi Centrifiga,” features harsh, intermittently placed notes that brush up against the atonal but never cross over.
The ringing of “II” has an arid, side-winding melody, with warmer tones mixed in. This is Joe Pass meets Ry Cooder. “Of the Excrement and the Frog” is the only acoustic song, and its confident, powerful chording remains grounded in the blues but
The set ends with the warped, almost ambient “The Dreidl upon the Nose of the Sphynx,” a hermetic piece that is kind of jarring given the warmth of most of the other songs. Still, it chills in many ways, including with its contemplative grace. That is a good overall way to characterize “Guitar Soli for the Moa and the Frog.” Filipe Felizardo is certainly a student of the recent history of solo guitar. But he is also a master of restraint and tension. His compositions, which draw from his ear for space, silence and echo, draw from the genres and sonic experiments that have come before him, but become strangely, beautifully his own.

in: Foxy Digitals by Mike Wood

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フェリザルドはこれまでも自主レーベルで2作をリリースしているが、この『Guitar Soli~』もふくめ、いづれもドローンやルーパーなどのデヴァイスを駆使したギター・ワークである。本人はミュージシャンでありヴィジュアル・アーティ ストでもあるという多面体、なかなかにエッジの効いた深遠なるイメージの投影がみえる。ミュージシャンとして、ふだんはガブリエル・フェランディーニ (ds)や前述のペドロ・ソウザなどとトリオなどでも活躍しているという。サウンドスケープ的な音楽が前衛シーンを担うのは、ポルトガルに拠らず時代の潮 流なのか、とても多くを語る造形である。タイトルをみてすぐに、これは何かストーリィをもとにイメージされた音楽、と察しがつく。聴くまえにやたらと文字 情報を追うのは野暮であるので放置しても、Moaは絶滅した無翼の恐鳥であるし、ファースト・トラックがトマス・ピンチョンの小説と同名なのにも気がつい た。考えてみれば、この時点で聴くほうは勝手に頭のなかで形づくられるイメージとたたかうことになるわけだ。あまり気楽に聴ける性質のものではない。

こうした内的な相克こそ演るほうにとってのテーマであり、嘘偽りのない実況なのではないか。現出される音がそれ自体に含みうる真逆の効果。音楽というのは もともと流れることを身上とするわけではあるが、音がメロディらしさを刻みはじめるとなんとも居心地がわるくなる不思議なアルバムだ。逆に音像が長々と伸 ばされたり放置されたり、単純運動のリフなどに見舞われるとき、音への執着がましてくる。静止や閑寂がエネルギーの溜めであるというパラドックス。じつは 繰り返しほどの激情はないという皮肉な相克である。表現したいこと、を目指して音が結集することはあまりなく、例えれば話されている言葉の意味よりその裏 が無意識に雄弁であるような感覚。フレットの網の目に攪拌されつつも、脳裏は別次元に捉われる。

楽器に身体性などという小難しい単語をもちこむことはいともたやすい。しかし、体の一部としての楽器からエナジーが濾過される、などという素直な状況はこ こにはない。逆だ。自己内部へ降りてゆくための、外付けの不自由なツールであることには変わりなく、だからこそ終着点もない。深く沈殿することが必ずしも 過去を向くことを意味しない。時制もない世界では光明も仄みえる。そもそも、はじき出された音がある一定の属性に見舞われてしまうことは自然の道理で、初 めから100%の想定は不可能だ。あとは空間操作による増幅しかないだろう(デヴァイスや楽器のテクニカルな面を素人が述べるまでもなく)。物理的な原理 を揺さぶる試み。出たところを受け入れながら切り開いてゆく感じがいい。偶然と必然、大胆と入念、繊細と壮麗がたえず反転しつつ同居している(*文中敬称 略。伏谷佳代

in: Jazz Tokyo by Kayo Fushiya

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FILIPE FELIZARDO // Guitar Soli for the Moa and the Frog ****

Shhpuma, the new Clean Feed sub-label, starts with a solo guitar album by Filipe Felizardo, a young Lisbon-based artist with already two self-released solo works to his credit. From the very first notes it is absolutely clear that he is far from being threatened by the several comparisons you may possibly detect. Choosing the field and the directions outlined in this work, Felizardo must in fact be perfectly aware of the heavy echoes of the late John Fahey’s style, and of the natural bond with a guitar composition approach à la Mazzacane Connors. And he’s right not to be, for he has delivered, in any case, an original album.
The opening track, called, “Against The Day” like the Pynchon novel, inherits from the author a taste of pre-catastrophic tension. Felizardo lets the listener drown in the buzz between a note and the following one, craving for a new reverb. He wisely takes his time, slowly inflating each single chord, leaning on trembling layers. Be available to apply to your life a bit of suspension of disbelief for once! Close your eyes and you will probably find yourself on a cliff edge admiring an endless river that runs across majestic canyons.
What surprises the most about the four chapters in the long “A Conference Of stones And Things” is the choice of eschewing the preeminent role of effects and external devices – from what I may discern – in the building of sound textures. Felizardo must be really confident of what the amplifiers will return to him. The guitar is unveiled and the composition discloses the physical relationship between the guitarist and his instrument. Sparse and diluted phrasings, sometimes left to die at length in the silence – so that is their memory more than their presence and sound to develop the listening experience – leave the scene to circular obsessive motifs and naked percussive arpeggios before newly fading in a far reverberation. Blues oriented utterances and rhythmic accompaniment patterns work as a coherent background for the fretwork of deep and cavernous touches. Interstices are filled with waiting.
The brief acoustic “Of The Excrement And The Frog” showcases the musician’s ability to build soundscapes through absences and shades. And now you could probably see in the above mentioned canyons even a far dust cloud. For sure it is the Wild Bunch.
To pre-emptively answer to an underlying and legitimate question in a Free Jazz Blog, it’s hard to say whether this is or this is not a jazz album. I find it thrilling anyway.
A promising step for the artist. A good start for the label.

in: Free Jazz by Paolo Casertano

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Primeiro tomo desta “sublabel” da Clean Feed que tem como propósito editar a música que se faz em Portugal nos domínios da improvisação e do experimentalismo, “Guitar Soli for the Moa and the Frog” apresenta-nos um guitarrista que nos últimos anos tem ganho especial importância entre nós. Filipe Felizardo soa-nos como se Loren Connors, Oren Ambarchi e Bill Frisell fossem uma e a mesma pessoa. Não por ser influenciado por estes, mas porque caminha por estradas e carreiros que lhes são confluentes. Há vestígios de blues, folk e até country nas malhas que vai construindo, há um psicadelismo que se transmuta em situações vizinhas de alguma electrónica exploratória, há jazz “fingerpicking” na linhagem de Jim Hall e há materiais impossíveis de catalogar, gerados por uma mente criativa que, estou certo, irá dar muito que falar. Grande arranque, este, da nova Shhpuma.

in: REP no sapo by Rui Eduardo Paes

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Guitar Soli for the Moa and the Frog, o terceiro álbum de Filipe Felizardo. Com um título que evoca o universo de guitarristas como John Fahey, a música de Felizardo evoca a fase final do mestre, mas essa é apenas uma referência. Depois de ter iniciado percurso a solo com longas peças ambientais, Filipe está agora mais próximo de Loren Connors e dos seus blues elípticos, nos quais são mais importantes o silêncio e a vibração entre notas do que as notas propriamente ditas.
É música profundamente lírica mesmo sem palavras; é música totalmente física e nua (um homem, uma guitarra eléctrica, um amplificador e o espaço entre eles). Quando Filipe constrói frases mais abertamente blues, é para as estilhaçar de seguida. Como os Pão, mas com resultados estéticos totalmente diferentes, Filipe Felizardo faz música que confronta forma e não forma, melodia e dissonância, som e silêncio.

in: Público by Pedro Rios

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[takoma-land] Den Lissabonbaserade gitarristen Filipe Felizardo är först ut på det nystartade portugisiska bolaget Shhpuma, under beskydd av landskamraten Clean Feed. Jag läser mig till att Felipe Felizardo gjort sig ett namn på den kreativa scenen i Portugal med två självutgivna soloalbum, det här är det tredje. Men den dronebaserade musiken han framförde på dessa har han här delvis lagt åt sidan för att söka sig västerut och Takoma-land. Och han gör det bra. John Faheys ande svävar över Guitar Soli for the Moa and the Frog med elektrifierade tillslag, fingerpicking, aningar av slide, ödsliga vidder och ett storslaget sound där klangerna skapar expanderande rymder. Jag skulle tro att det handlar om en blandning av komposition och improvisation, hur låtarna svävar ut talar för det senare, hur de ändå finns i en form där öppna ackord eller melodiska teman återkommer talar för det tidigare. Guitar Soli for the Moa and the Frog är en filmisk och vacker skiva.

in: Soundofmusic by Magnus Nygren

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Ceci est ma première rencontre avec le guitariste Filipe Felizardo, qui a déjà auto-produit deux albums solo auparavant. Deux albums que j’aimerai beaucoup écouter sous peu car ce troisième disque m’a plus que convaincu du talent de ce musicien. Huit improvisations pour guitare et ampli, dont une (splendide) à la guitare acoustique, inspirées par le guitariste primitiviste John Fahey et le romancier décalé Thomas Pynchon. Mais l’important n’est pas tant ces références littéraires que l’atmosphère propre à Felizardo. Une ambiance sombre, psychotique, torturé, contemplative, où chaque note de guitare est comme un rayon qui peine à traverser le sombre nuage et l’obscurité oppressante qui constituent la psyché de Felizardo. Comme une tentative de retour à la surface, ou une sorte de reverse impossible.

On croirait parfois entendre Bill Orcutt, dans une version blues dilaté, lent et mélancolique, Bill Orcutt sous anxiolitique peut-être oui. Filipe Felizardo enchaîne des intervalles irréguliers constamment, joue très fort, puis très bas, entrecoupe chaque phrase de longs silences pesants, laisse surgir des motifs qui reviennent plusieurs pistes après tels des spectres, ou s’évanouissent dans le silence. Un blues tout en rupture, qui joue contre toute attente, autant au niveau structurel qu’au niveau harmonique. Un blues dissonant et anti-formel mais qui n’en a pas moins une logique narrative propre. Et c’est là certainement que réside tout le talent de ces soli, on perçoit difficilement la structure de chaque improvisation à cause des ruptures incessantes, mais il y a tout de même un fil conducteur qui traverse le disque dans son ensemble. Et la continuité n’est certainement rien d’autre que le flux de la conscience de Filipe (ou de son inconscient), une conscience qui agit en digression, en métaphore, en flash-back, et en oubli.

Il y a quelque chose de très cinématographique, on imagine aisément ces improvisations ponctuer un film expérimental sombre et malsain (genre Sombre de Grandrieux d’ailleurs). Un blues narratif et imagé, obscur, profond, qui explore plus les tréfonds de l’inconscient que ceux de la guitare. Où chaque dissonance exorcise la psychose, tente de repousser un environnement social oppressant et aliénant, où chaque silence permet à chacun (musicien comme auditeur) de se retrouver face à soi-même, en-dehors de ses névroses et de ses aliénations. Un blues mélancolique, inconscient, grinçant et extrêmement intense. Hautement recommandé!

in: Improv Sphere by Julien Héraud

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Esta é a primeira edição mais oficial de Filipe Felizardo. Depois de dois álbuns a solo em edição própria, este “Guitar Soli For The Moa And The Frog” sai pela Shhpuma, uma sub-editora da Clean Feed. Bastante diferente dos seus outros registos, Felizardo deixa de lado a maior parte dos efeitos que caracterizam o seu som para se dedicar a composições em guitarra. Algo que não será novidade para quem o viu em concerto no último ano, entregou-se a esta nova faceta que introduz um discurso completamente novo no seu trabalho. Maioritariamente em guitarra eléctrica (também tem alguns temas em acústica), “Guitar Soli For The Moa And The Frog” tem um som muito construído, um reflexo de várias referências, sendo a mais curiosa a dos Om (sente-se o seu som grave em muitas das peças).+

in: Flur by Pedro Santos

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E a música de guitarras continua a fazer -se (muito) com a voz das cordas. Foi um percurso longo, cheio de desvios e derivas. Mas podemos assinalar alguns momentos, coincidências. Entre 1993 e 1995, os Earth editaram dois discos onde as canções eram recipientes de modulações e atmosferas (‘Earth 2: Special Low-Frequency Version’ e ‘Phase 3: Thrones and Dominions’): rock que de tão “pesado” se tornava horizontal. E em 1997, Neil Young calava-se para deixar os acordes acompanharem a viagem de William Blake (Johnny Depp). Durante este período, os Nirvana já haviam terminado e a música electrónica tomava de assalto a história como o único género esteticamente progressivo.
À guitarra, eléctrica ou acústica, restava uma autorreflexão e um regresso ao passado com dois intuitivos: explorar outras potências (o drone) e rever cânones e histórias (como a da Escola de Takoma, do free-jazz, do improv, do noise ou de gentes esquecida: Harry Pussy ou US Maple). O resultado foi a descoberta de um universo que continua a expandir-se.
Filipe Felizardo pertence a esse universo, ainda que a sua música não obedeça a programas ou referências. Traçou o seu próprio lugar e a partir dele compõe espaços e silêncios. Há momentos em que a guitarra sugere melodias ou acordes reconhecíveis, mas logo se sustém, antes de largar vibrações, ecos. Num momento, ameaça “cantar”, noutro abraça a efemeridade do som. Nunca se impõe. A conversa que estabelece com o instrumento abre-se aos outros, com inflexões suaves, pontuações seguras. É melancólica, tímida, fugidia, imprevisível.De alguma forma, na música de Filipe Felizardo – e o novo disco, “Guitar Soil For The Moa And The Frog”, com selo da Shhpuma é disso exemplar – ouvem-se duas vozes. A da reverberação, que é a do aço (da guitarra) e a do fazer solitário, artesanal e reflexivo do performer. É essa relação intimista, irredutível, ricamente austera que as canções revelam. Uma relação hoje tão desprezada, com o som e com acto de ouvir: música de guitarras.

in: ZDB by José Marmeleira (Público, Time Out)

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O novo “Guitar Soli for the Moa and the Frog”, primeira edição da editora Shhpuma, oferece-nos um Filipe Felizardo a pairar por cenários mais corpóreos. É uma coisa mais física.
Assim se introduz o novo álbum do músico guitarrista e artista plástico Filipe Felizardo. Em termos gerais, se o intrumento base não se altera, a guitarra eléctrica, já o método de construção sofre uma variação importante em “Guitar Soli for the Moa and the Frog”. Isto, por comparação com os anteriores “Ovöo” (2010) e “III = 207,8,  bII=56.3º” (2011).
Neste, há um corte quase umbilical com o continuum sonoro proporcionado pelo uso robusto do loop sobre a guitarra. Neste, a guitarra eléctrica de Filipe Felizardo ganha uma outra presença, vive com uma outra naturalidade. Livre de processamentos, há neste uma presença física mais possante, um diálogo homem/instrumento claramente mais ligado à terra. E isso é emocionante.
Depois, este novo ser orgânico abre espaço para uma outra importante componente do som de Filipe Felizardo. Importante e central: o silêncio. Há muito que não ouvia um disco onde o silêncio falasse tanto. Arriscaria a dizer que o silêncio é quase metade do que se ouve em “Guitar Soli for the Moa and the Frog”. Sim, aqui, o silêncio ouve-se. Uma metade não em tempo mas na centralidade daquela que é a mensagem transmitida por Filipe Felizardo. Em parte, são os tempos de silêncio que conferem à música de Filipe Felizardo toda a densidade dramática que se perspectiva em “Guitar Soli for the Moa and the Frog”. As pausas, as respirações, são aqui tão fundamentais como os sons, são elas que abrem espaço para a reflexão, que adensam o mistério que paira por todo o disco. É um disco em suspense.
Belíssimo.

in: A Trompa by Rui Dinis